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Asma na Criança

| Dr,ª Ana Môrete

Asma na Criança

A doença crónica mais comum na maioria das crianças dos países industrializados é a asma. O absentismo no ensino pré-escolar, o número de consultas em serviços de urgência e o número de hospitalizações por asma, sugerem que ela é a principal causa de morbilidade neste grupo etário.

Definição de asma infantil – “episódios repetidos de obstrução das vias aéreas, sintomas intermitentes de hiperreactividade brônquica devido a factores desencadeantes como infecções víricas, exercício e exposição a alergéneos“. - torna-se difícil de aplicar esta definição com segurança na idade pediátrica.

Diagnóstico de asma infantil – Estabelecer o diagnóstico de asma em lactentes e crianças até aos três anos é um desafio. Os sintomas respiratórios, como a tosse e pieira (sibilância) são também frequentes em crianças que não sofrem de asma. Estudos populacionais demonstram que mais de 60% das crianças com sibilância recorrente desde os primeiros meses de vida, quando tratadas serão saudáveis na idade escolar. Assim sendo, nem todas as crianças com sibilância ou tosse sofrem de asma. Outro desafio surge devido á dificuldade de avaliação da função respiratória, pela incapacidade de colaboração na realização do exame (espirometria). Este exame é a chave do diagnóstico em crianças mais velhas e adultos.

A história clínica é fundamental para o diagnóstico, bem como o conhecimento das diferentes formas de apresentação da doença (fenótipos). Estes traduzem a variabilidade evolutiva da doença ao longo da infância.

Sabendo que a asma infantil é a mais frequente entre as doenças de causa alérgica, assim a sua prevalência é mais elevada nas crianças com antecedentes familiares de alergia, e com maior exposição aos alergéneos (como os ácaros do pó, ácaros de armazenamento, pólens, animais de companhia e fungos). Outros factores de risco frequentes incluem infecções respiratórias virais, exposição a fumo de tabaco, exposição a outros poluentes e a stress emocional.

Clinicamente caracteriza-se por episódios recorrentes de tosse, sibilância e dificuldade respiratória com predomínio nocturno.

A tosse, particularmente nos mais novos, pode ser a única manifestação da doença.
A tosse e/ou sibilância induzidas pelo exercício físico podem ocorrer isoladamente ou no decurso de uma exacerbação. 

A existência de outras doenças alérgicas concomitantes (rinite e/ou dermatite atópica) apoiam o diagnóstico de asma.

Para os cuidadores de crianças qualquer um dos seguintes sinais e/ou sintomas, deve ser sinal de alerta para a possibilidade de estar perante uma asma:

  • Episódios frequentes de sibilos – mais de que uma vez por mês.
  • Tosse e/ou sibilos induzidos pelo exercício físico.
  • Infecções víricas repetidas com duração superior a 10 dias.
  • Tosse, particularmente á noite durante os períodos livres de infecções víricas.
  • Sintomas que persistem após os 3 anos de idade.
  • Agravamento/aparecimento dos sintomas após contacto com alergéneos: ácaros do pó, ácaros de armazenamento, pólens, animais de companhia e fungos.

Frequentemente fazer um diagnóstico definitivo só é possível aos 5/6 anos de idade, embora se saiba que numa percentagem significativa de asmáticos, a sintomatologia teve início nos primeiros meses de vida.

Tratamento de asma infantil –A decisão de iniciar o tratamento com fármacos anti-asmáticos nunca deve ser adiada pela falta de um diagnóstico de certeza, por isso é fundamental um diagnóstico da doença o mais precoce possível.

Na asma infantil o pilar do tratamento é a terapêutica inalada.


Na maioria das crianças asmáticas, a doença pode ser controlada eficazmente. É mandatório o envolvimento dos cuidadores no tratamento. No momento da decisão médica de iniciar tratamento, deve ser explicado aos cuidadores preferencialmente por escrito o plano terapêutico.

Este plano deve incluir medicação controladora diária, medicação de alívio SOS (para ser utilizada nas crises), devendo ainda ser explicado o mecanismo de acção dos medicamentos e os efeitos secundários potencialmente associados. As dúvidas e receios dos cuidadores devem ser ouvidas e valorizadas.
A terapêutica inalada deposita o medicamento directamente no orgão alvo, o brônquio.  Este tratamento deve ser adequado a cada grupo etário.

Assim:

  • Em crianças com menos de 4 anos usar inaladores pressurizados associados a câmaras expansoras com máscara.
  • Em crianças entre os  4 e os 6 anos de idade usar inaladores pressurizados associadas a câmaras expansoras com peça bucal.
  • Com mais de 6 anos recomendam-se como primeira linha os inaladores de pó seco.
  • Os nebulizadores devem sempre ser considerados como opção de segunda linha.

Estas terapêuticas se usadas corretamente são seguras, são eficazes e practicamente isentas de efeitos secundários.

Medicamentos na asma infantil –  O tratamento controlador deve ser iniciado com corticosteroides inalados  em baixas doses diárias. Os antileucotrienos podem ser uma opção de tratamento inicial particularmente em crianças que apresentem concomitantemente rinite alérgica.

No tratamento se o doente não está controlado associar um broncodilatador de longa acção ao corticosteroide inalado, de preferência no mesmo dispositivo inalatório.

Uma dose baixa de corticosteroide inalado é habitualmente suficiente pelo efeito aditivo da associação com o broncodilatador, e só deverá ser aumentada se o controlo não for obtido ao fim de três meses.
A técnica inalatória deve ser cuidadosamente avaliada em todas as consultas, e revista se necessário.

Tratamento SOS na asma infantil – O tratamento consiste na administração imediata de um broncodilatador de curta acção inalado. Permitindo normalizar a função respiratória e consequentemente diminuir as exacerbações.

Controlo da asma infantil –  Para manter o controlo da asma infantil, os doentes e os cuidadores devem:
Evitar factores de risco desencadeantes.

  • Manter e cumprir a medicação utilizando diferencialmente os medicamentos de controlo e de SOS.
  • Reconhecer sinais de agravamento.
  • Na presença de sintomas recorrer de imediato à observação médica.

Uma criança com a sua asma controlada vive activa e produtivamente feliz!



Bibliografia:
Diagnosis and treatment of asthma in childhood: a PRACTALL consensus report. Allergy 2008: 63: 5-34
Estratégia global para o diagnóstico e tratamento da asma em crianças com idade igual ou inferior a 5 anos. www.ginasthma.org
Abordagem e controlo da asma. Norma da Direcção-Geral da Saúde. dgs@dgs.pt
Tratado de Alergologia Pediátrica. M.A. Martim Mateos. 2011 Ergon