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Asma e cárie dentária: qual é, afinal, a relação?

Será a asma um factor de risco para a cárie dentária ou terá a cárie dentária alguma influência na asma? Quais os efeitos da medicação anti-asmática nos nossos dentes? Vamos saber as respostas.

Alguns autores têm defendido a existência de uma associação entre a asma e a cárie dentária, sugerido que os asmáticos têm um risco mais alto para a cárie como consequência da sua condição médica e física e também das terapêuticas farmacológicas crónicas a que os mesmos estão sujeitos. A verdade é que os estudos realizados divergem muito nos seus resultados e nas suas conclusões, o que faz com que não haja consenso.


Mas a asma não parece estar apenas relacionada com a cárie dentária. Há um número crescente de estudos clínicos ou epidemiológicos que sugerem um aumento significativo de patologia oral em crianças asmáticas, designadamente alterações morfológicas dentárias isoladas ou envolvendo todo o aparelho estomatognático, gengivite, candidíase e alterações da composição e fluxo salivares.


Não se sabe muito bem porque é que estas alterações orais ocorrem com maior frequência nos asmáticos, suspeitando-se que possam estar relacionadas com o complexo mecanismo de actuação dos diversos fármacos, tipo de dispositivos de administração, via de administração, dose, frequência, ou então com factores etiopatogénicos inerentes à própria asma.


Vários factores têm sido utilizados para explicar esta alegada associação entre problemas nos dentes e asma, designadamente a diminuição do fluxo salivar por terapêutica prolongada com agonistas beta 2 (medicamentos broncodilatadores para alívio dos sintomas) e uma dieta excepcionalmente cariogénica e/ou xaropes açucarados. Na verdade, sabe-se que a administração de agonistas beta 2 (normalmente na forma de aerossóis) afecta, entre outros, os receptores adrenérgicos das glândulas salivares e que, quando usados de forma prolongada, podem ter consequências na secreção de proteínas salivares.
Além disso, alguns agentes usados no tratamento da asma contêm lactose, que apresenta um potencial cariogénico, particularmente se associado a fluxo salivar reduzido.


Os especialistas avisam que mastigar pastilhas elásticas como forma de aumentar a secreção salivar e compensar os valores de baixa de pH não é solução nos asmáticos, até porque algumas delas contêm hortelã-pimenta, hortelã verde e mentol (agentes aromatizantes), que poderão eventualmente desencadear crises de asma.

 

Asma pode estar associada a várias patologias orais

Mas olhemos para os estudos. Em 2008, a Dra. Ana Luísa Costa, do Departamento de Medicina Dentária, Estomatologia e Cirurgia Maxilo-Facial da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, analisou uma amostra constituída por 107 crianças asmáticas, 59 do sexo masculino e 48 do sexo feminino, de idades compreendidas entre os 5 e os 12 anos (média: 8,67 anos), no sentido de detectar cáries dentárias e alterações periodontais, bem como determinar o fluxo salivar total estimulado, a capacidade tampão e concentração salivar de S. mutans (estirpes cariogénicas) e Lactobacillus.


De referir que diferentes estudos clínicos revelaram uma correlação positiva entre o número de colónias de Lactobacillus da placa bacteriana e saliva e a existência de lesões activas de cárie. Estas bactérias colonizam as cavidades sem necessitarem em exclusivo de sacarose para a sua proliferação.
Foram também averiguados indagados factores de índole social, comportamental e dietéticos. O estudo decorreu no Hospital Pediátrico de Coimbra.


O estudo aponta para uma prevalência de cárie de 57,6% na dentição decídua ou de leite e de 36,3% na dentição definitiva. Em quase 60% das crianças detectou-se a formação de cálculos e inflamação gengival. Em 26,2%, foram observadas lesões de hipomineralização do esmalte. Cerca de 20% das crianças analisadas apresentavam uma baixa nos valores do fluxo salivar total estimulado e na capacidade tampão da saliva.


Outro dado curioso: relativamente aos hábitos de higiene, um elevado número de crianças ou não escovava ou efectuava uma escovagem dentária única diária, nem sempre ao deitar.
Segundo a autora, não foram consideradas estatisticamente significativas as associações entre o tipo e frequência de medicação e a concentração salivar de S. mutans e Lactobacillus, o fluxo salivar total estimulado e a terapêutica preventiva da asma ou os índices cpo/CPO, a idade média de início de medicação ou a medicação prévia com xaropes açucarados e os índices cpo/ CPO, assim como com os cuidados de higiene.


Em conclusão, o estudo não comprovava todas as hipóteses relativas ao risco aumentado de patologia oral por parte das crianças asmáticas, mantendo-se, portanto, a necessidade de efectuar estudos longitudinais (seguir a evolução ao longo do tempo), com amostras ainda mais significativas que determinem determinar a existência deste comprometimento da Saúde Oral em crianças asmáticas, quais as evidências inerentes e ainda as eventuais implicações quer clínicas, quer em termos de Saúde Pública.
Entretanto, a Dra. Ana Luísa Costa considera que as crianças asmáticas, um grupo “numeroso e tendencialmente crescente na consulta de Odontopediatria”, deverão merecer “uma atenção cuidada por parte dos médicos dentistas no sentido de averiguar todas as particularidades relacionadas com a Saúde Oral”. O médico dentista terá igualmente um papel essencial na adopção de medidas preventivas e terapêuticas, que devem ser “urgentemente tomadas”.


Crianças asmáticas com mais defeitos no desenvolvimento do esmalte dentário

Já em 2009, mais concretamente em Junho, foi publicado outro estudo no Jornal Brasileiro de Pneumologia, intitulado “Prevalência de defeitos do desenvolvimento do esmalte dentário em crianças e adolescentes com asma”. O objectivo era determinar a prevalência de defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário em pacientes pediátricos com asma e a sua relação com a severidade da asma, o início dos sintomas e o tratamento medicamentoso.


O estudo envolveu 68 asmáticos e 68 não asmáticos (controlos) com idades compreendidas entre os 5 e os 15 anos, tendo sido recolhidos dados retrospectivos da história médica e de saúde bucal da população do estudo através de um questionário estruturado. Todos os participantes foram submetidos a um exame aos dentes.


Neste estudo, foi observado que 89,7% das crianças e adolescentes asmáticos apresentavam defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário em comparação com apenas 38,2% no grupo controlo. Chegou-se à conclusão de que um doente com asma apresenta um risco 11 vezes superior para o aparecimento de defeitos de desenvolvimento do esmalte em dentes permanentes.


Além disso, foi observada uma associação entre defeitos do esmalte dentário e maior severidade da asma e início dos sintomas mais precoce. Não se observou, porém, qualquer associação entre o início do tratamento da asma ou frequência de uso da medicação com o aparecimento de defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário.


Em resumo, os doentes asmáticos têm claramente mais defeitos no desenvolvimento do esmalte dentário, mas tal não parece estar relacionado com os medicamentos usados para a asma.


Intervenção precoce pode prevenir lesões

Concluindo, a cronicidade da asma e a necessidade de tomar determinados medicamentos por longos períodos de tempo aconselham cuidados acrescidos com a higiene oral nos doentes asmáticos, em particular nas crianças e adolescentes, e outro tipo de medidas profilácticas.


Só com uma intervenção precoce e continuada poder-se-á prevenir lesões orais, particularmente a cárie dentária, pelo que o médico que trata a asma deverá assumir um papel fundamental no acompanhamento e encaminhamento atempado para a consulta de Odontopediatria.

Fontes 

https://estudogeral.sib.uc.pt/dspace/handle/10316/5514

http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/25466

http://www.spp.pt/Userfiles/File/App/Artigos/13/20090406125107_Art%20Actual_Costa%20AL_39(6).pdf

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