Melhorar as emoções e a ansiedade é tratar a asmaOs asmáticos tendem a ser mais ansiosos e, embora não se defina um tipo específico de personalidade, apresentam características psicológicas, com predomínio de traços neuróticos, baixa extroversão e pouca abertura para novas experiências.
Os asmáticos têm traços de personalidade que os distinguem de outros doentes, designadamente uma preponderância para o neuroticismo, menos extroversão e pouca abertura a novas experiências.
Esta é uma das conclusões de um estudo intitulado “Dos factores biopsicológicos às intervenções multifamiliares e psicoeducacionais”, realizado no âmbito dos trabalhos de doutoramento da Profª. Lia Fernandes, psiquiatra do Hospital de São João e Professora Associada de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A psiquiatra estudou os aspectos psicológicos, nomeadamente a ansiedade e a depressão, bem com as características de personalidade que influenciam a asma na sua duração e gravidade. Para tal, foram recrutados doentes com asma do Serviço de Imunoalergologia e Pneumologia do Hospital de São João do Porto. O resultado está em linha com estudos internacionais sobre a matéria, que já apontavam para um elevado nível de neuroticismo, com comportamentos de grande ansiedade, hostilidade, depressão, impulsividade e vulnerabilidade perante as situações de vida. “Quanto menos extroversão e menor abertura à experiência, maior duração e gravidade da asma”O estudo detectou ainda que existia uma correlação significativa entre certas características da personalidade (baixa extroversão e pouca abertura à experiência) e uma maior duração e uma maior gravidade da asma. De facto, “estes doentes são, em regra, mais introvertidos, menos acolhedores, menos sociáveis, menos activos, com menos procura de excitação e com menos emoções positivas, assim como mais sugestionáveis, com pouca flexibilidade, não gostando de experimentar coisas novas e tendo menos capacidade de adaptação a situações de vida”. Pelas características de personalidade de elevado neuroticismo, “demonstram normalmente grande ansiedade e impulsividade, tornando-se mais vulneráveis a situações de frustração e de stresse”. Estas situações, por sua vez, podem resultar como “importantes desencadeadores de ataques de asma, levando a mecanismos psicofisiológicos com libertação de neuromediadores e hormonas que provocam broncoconstrição e alteração dos mecanismos imunológicos”. Segundo a especialista, “há evidência de que algumas emoções negativas, particularmente o pânico e a depressão, possam produzir alterações respiratórias com agravamento da asma, quer directamente pelos efeitos psicofisiológicos referidos, quer indirectamente pelo descuido nos auto-cuidados/adesão ao tratamento. Reversamente, estas alterações emocionais podem ainda ser desencadeadas pela própria asma”. Como explica, “quer estas manifestações psicológicas inerentes ao próprio processo da asma, quer as situações clínicas que mimetizam a asma ou aspectos dela têm na sua génese um mecanismo comum: a estrutura psicossomática. Algumas das doenças que se assemelham com a asma têm na sua origem também um mecanismo psicológico, embora prioritariamente funcional com componente fisiológico menor (perturbações somatoformes, conversivas e factícias)”.
“Não podemos olhar para a asma só como uma doença orgânica”Será que as pessoas desenvolvem asma porque são mais ansiosas ou será que ficam mais ansiosas porque têm asma? As duas hipóteses são verdadeiras e recíprocas. “É um ciclo vicioso”, afirma a Profª. Lia Fernandes. A propósito, a especialista chama a atenção para o modelo multifactorial da asma. “Nós podemos desconstruir o ser humano em dois grandes subsistemas: o interno e o externo. O interno é a parte psicológica, orgânica e fisiológica. A parte externa tem a ver com os factores físicos, sociais e do meio ambiente. Para repensar a asma na sua globalidade, temos que proceder à resíntese desta desconstrução. Estas duas dimensões interagem e estão permanentemente ligadas. Hoje, não podemos olhar para a asma só como uma doença orgânica, como se olhava no passado”, adverte. A psiquiatra conta uma experiência ocorrida na Suécia em pleno Inverno, na qual pessoas asmáticas com alergias a pólens, ao serem expostas à visualização de fotografias de campos floridos, despoletavam crises asmáticas. A experiência mostra a complexidade desta doença psicossomática e, em particular, a importância dos componentes psicológico e emocional. Do mesmo modo, sabe-se que as pessoas que estão sujeitas a grande stresse de forma crónica, como os cuidadores de idosos ou os trabalhadores por turnos, apresentam o sistema imune debilitado e, por isso, tornam-se mais susceptíveis a contraírem infecções. Em alguns casos, diz, este efeito imunosupressor associado a uma alteração da imunidade celular pode agravar certos tipos de reacções alérgicas (asma, dermatite de contacto, etc.). “Claramente, há um componente psicológico que é muito importante e que não pode ser menosprezado, quando pensamos no diagnóstico, no tratamento e no prognóstico desta doença”, sublinha. Mas não são somente os doentes a serem influenciados pelos aspectos psicológicos. A ansiedade, o pânico e a morbilidade parecem afectar em simultâneo a decisão de prescrição dos médicos. Aqueles com maior sensibilidade seriam também mais influenciados nas suas decisões pelas características de elevado neuroticismo dos seus pacientes. “Existem, de facto, alguns doentes asmáticos mais ansiosos que, ao expressarem as suas dificuldades, levariam os médicos tendencialmente a prescrever mais corticoesteróides e broncodilatadores do que aquilo que a função pulmonar indicaria. Isto, por sua vez, determinaria menor utilização dos cuidados de saúde (menor admissão, quer em serviços de urgência, quer em consultas, e menos hospitalizações). O efeito parece um bocado paradoxal, mas estes doentes acabariam por ficar mais medicados, pelo efeito de hipervigilância, inerente aos níveis de elevada ansiedade e de maior número de queixas sintomáticas. No entanto, esta característica de ansiedade que pode ser mobilizadora para o tratamento deixa de existir se for excessiva ou nula. Os doentes nestes dois extremos seriam aqueles que tendencialmente viriam a desenvolver crises mais graves e a trazer mais problemas de tratamento aos seus médicos assistentes”, indica. Como intervir?Perante as evidências destas múltiplas influências de personalidade, aspectos emocionais, psicológicos, sociais, físicos e ambientais na asma, o que fazer? A Profª. Lia Fernandes estudou a eficácia das intervenções multifamiliares e psicoeducacionais, que combinam não apenas a transmissão de conhecimentos, direccionada para aquilo que os asmáticos e seus familiares pretendem saber, mas também a promoção de mudanças comportamentais, no sentido da melhoria da auto-eficácia. Deste modo, “procurou-se desenvolver uma estreita interacção entre os técnicos de saúde e doentes, estimulando a participação de todos os asmáticos/familiares envolvidos no projecto, com a satisfação de diversas dúvidas, dissipando assim falsos constructos, tendentes à redução da ansiedade acoplada à doença, e ao encorajamento de hábitos e atitudes conducentes à saúde”. No grupo Psicoeducacional, que contou com a intervenção de profissionais de várias áreas do saber (designadamente imunoalergologia, psiquiatria, psicologia, enfermagem e fisioterapia), foram transmitidos conhecimentos (informações sobre aspectos epidemiológicos e patogénios da asma, formas de tratamento e controlo da doença) e ensinadas aptidões instrumentais (avaliação e registo de sintomas, adequação de técnicas de uso de inaladores, medidas de evicção, técnicas respiratórias e de relaxamento, entre outras) aos doentes, de forma a facilitar a resolução dos problemas relacionados com a asma. O grupo Multifamiliar, dirigido por dois psicoterapeutas (psiquiatra e psicóloga), destinou-se aos doentes asmáticos e seus familiares, divididos inicialmente em dois grupos distintos, que se juntavam posteriormente numa sessão única e final. Este modelo fundamentou-se em três componentes distintas: a educacional (através da partilha de experiências sobre a doença), a rede social (abordando formas de lidar com as situações de isolamento, adaptação à doença entre outras) e solução de problemas (com ampliação de soluções pelo treino de estratégias de superação da doença). Nesta abordagem, esclarece, “pretendeu-se facilitar a expressão de sentimentos e emoções ligada à asma, bem como repercussões na família, no trabalho e na rede social mais alargada, para além dos mecanismos que visam ‘colocar a doença no seu lugar’, nomeadamente no sentido de encontrar soluções para as crises, com a perspectivação da doença no passado, no presente e no futuro”. Havia, finalmente, um grupo de controlo que não foi submetido a qualquer intervenção. Os diferentes grupos foram avaliados ao longo do tempo, isto é, antes, durante e no final dos seis meses das intervenções. “Verificou-se que havia uma melhoria da qualidade de vida e do controlo da asma em ambos os grupos de intervenção. No controlo da asma, destacava-se mais o grupo psicoeducacional, mas ambos os grupos registaram melhorias significativas. Curiosamente, no multifamiliar, havia uma redução da necessidade de utilização de corticosteróides”, refere. De igual forma, observou-se uma melhoria nos parâmetros psicológicos de ansiedade, depressão e mecanismos de coping, bem como nos parâmetros clínicos de função pulmonar (designadamente FEV1 e PEF). O desenvolvimento destes dois tipos de programas, psicoeducacional e multifamiliar, ambos contemplando a dimensão da intervenção multidisciplinar, mostrou-se “uma intervenção inovadora, de âmbito alargado, com eficácia na melhoria de comportamentos, traduzida pelas diferenças encontradas quer ao nível das melhorias clínicas, quer psicológicas, como já referido, mas também nos critérios de morbilidade”. Conforme salienta, trata-se de “uma intervenção eficiente na redução dos custos directos, pela menor utilização dos cuidados de saúde (serviço de urgência, consultas, hospitalizações), menor utilização de medicação e ainda pela redução dos custos indirectos (diminuição do absentismo laboral/escolar, menor envolvimento de cuidadores e de outros recursos)”. Face aos bons resultados obtidos com estes tipos de intervenções, a Profª. Lia Fernandes defende que deveriam ser aplicados em “clusters específicos de maior risco”, nomeadamente em indivíduos com asma grave e muito grave e identificando perfis psicológicos específicos, nomeadamente indivíduos com índices elevados de ansiedade. Mas a verdade é que saem todos a ganhar. Segundo a psiquiatra, “aprendem os doentes, os familiares, os médicos e os técnicos”. No futuro, estes programas poderão saltar os muros dos hospitais e incidir a nível comunitário, passando, por exemplo, pelas associações de doentes. De referir que estas intervenções são comuns em vários países, não só na asma como em outras doenças crónicas (diabetes, doenças cardiovasculares, entre outras), bem como nas doenças mentais (esquizofrenia, bipolar, etc.). Mais recentemente, têm sido aplicadas também na demência, a idosos e seus cuidadores, com grande eficácia. | |||||||||