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Estatinas poderão ser úteis no tratamento da DPOC

As estatinas poderão promover uma melhoria dos sintomas respiratórios, prevenir as crises e as suas consequências, melhorar a capacidade de exercício, refrear o consumo de cuidados de saúde, devolver competências para as rotinas diárias e até alterar o curso da doença.
É mais uma esperança para os que sofrem de DPOC. Vários estudos mostraram um efeito benéfico do tratamento com estatinas, o que é atribuído às suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Mas é cedo para começar a usar estas drogas por rotina. São ainda precisos estudos que comprovem as suas vantagens nesta doença em concreto e estabeleçam em que dose e por quanto tempo deverão ser utilizadas.

O tratamento com estatinas poderá trazer benefícios às pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica, revela um estudo agora tornado público. Os investigadores concluem que a administração de estatinas, normalmente utilizadas para reduzir o colesterol e prevenir doenças cardiovasculares, poderá também diminuir o número total de mortes, o número de mortes por DPOC, as idas ao serviço de urgência relacionadas com problemas respiratórios, as exacerbações, as entubações e o declínio da função pulmonar. Mais do que isso, as estatinas parecem estar mesmo associadas à redução da falta de ar (dispneia) provocada pelo esforço físico.

Como é que isto acontece? Segundo os autores, as estatinas demonstraram interferir com a inflamação sistémica, isto é, com o estado inflamatório do organismo, o que explicará o seu efeito sobre a morbilidade e a mortalidade cardiovasculares. Sabe-se agora que estes fármacos também actuam sobre a inflamação das vias respiratórias, característica da DPOC.

Ao reduzir a inflamação, as estatinas poderão promover uma melhoria dos sintomas respiratórios, prevenir as crises e as suas consequências, melhorar a capacidade de exercício, refrear o consumo de cuidados de saúde, devolver competências para as rotinas diárias e até alterar o curso da doença.

Mas atenção: não vá a correr à farmácia comprar uma estatina qualquer ou pedir ao médico que a prescreva. É que há muitos aspectos por clarificar, como o tipo de estatinas, a dose e a duração do tratamento. Nem todas as drogas desta classe poderão exibir este efeito ou actuar da mesma forma. São necessários muitos mais estudos, quer observacionais, quer randomizados e controlados, para que as estatinas passem a ser oficialmente indicadas, aconselhadas e receitadas pelos profissionais de saúde com o objectivo específico ou único de tratar a DPOC.

Aterosclerose e DPOC: uma mistura potencialmente explosiva


Como é que os investigadores chegaram àquelas conclusões? Começaram por identificar vários estudos que sugeriam o benefício do tratamento com estatinas em doentes com DPOC. No entanto, como os próprios autores sublinham, os estudos em causa eram muito diferentes entre si, designadamente no que respeita ao tipo de doentes analisados, ao tipo de estatinas utilizado, à dose administrada, à duração do tratamento e até aos objectivos. Em alguns deles, consideram mesmo que havia factores que levavam a sobrestimar o efeito das estatinas neste âmbito, pelo que os excluíram.

Aliás, será que os resultados favoráveis do tratamento da DPOC com estatinas não têm a ver com o seu papel cientificamente comprovado na redução do colesterol e na prevenção de doenças cardiovasculares, como uma doença isquémica? Será que uma coisa não explica a outra?

Na verdade, os doentes com DPOC têm, muitas vezes, problemas cardiovasculares. Desde logo, estes são doentes de uma faixa etária mais elevada e, já se sabe, quanto mais velhos somos, mais riscos corremos de sofrer de uma doença do foro cardíaco ou vascular. Mas há outras razões. Basta lembrar que a principal causa da DPOC é o tabagismo. Ora, o tabaco é também um importante factor de risco para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares. Já para não falar noutros factores de risco comuns, como a obesidade ou a diabetes.

Os especialistas consideram, também, que pode haver uma sinergia entre a inflamação respiratória típica da DPOC e os problemas cardiovasculares. Trocando por miúdos, uma coisa puxa pela outra. Significa que uma pessoa que tenha aterosclerose (uma doença inflamatória que afecta os vasos sanguíneos) poderá ver a sua situação clínica agravada pela DPOC devido à inflamação nos pulmões. Trata-se de uma mistura potencialmente explosiva. Mais uma boa razão para que os doentes com DPOC tenham especial cuidado com as suas artérias, tentando deixar de fumar, fazendo uma alimentação saudável e praticando algum exercício físico.

Mas a sinergia de que falamos pode não ser apenas entre DPOC e aterosclerose. A propósito, tem sido sugerida uma associação estreita entre as doenças cardiovasculares e a poluição ambiente. Essa ligação acaba de ser comprovada por um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos da América, segundo o qual a qualidade do ar que respiramos pode provocar um aumento imediato da tensão arterial e alterar os vasos sanguíneos. Como a hipertensão é um dos principais factores de risco para doenças como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral (AVC), conclui-se que a poluição, ao induzir hipertensão, poderá desencadear eventos.

O melhor mesmo é que os doentes com DPOC se mantenham bem afastados de agentes poluentes, designadamente do tráfego automóvel, pois, pelos vistos, não fazem apenas mal aos pulmões.

PCR elevada em doentes com DPOC


Outro dado curioso deste artigo prende-se com a proteína C reactiva (PCR). Trata-se de uma proteína plasmática produzida pelo fígado que aumenta perante estímulos inflamatórios. Por isso, foi inicialmente usada como marcador de inflamação e, mais recentemente, como meio de prever a mortalidade por enfarte ou mesmo por DPOC. Um estudo chegou mesmo a demonstrar que uma determinada estatina seria útil no tratamento de pessoas com níveis de colesterol normais, mas com PCR elevada, com o fito de reduzir os eventos cardiovasculares. Outro estudo em pessoas com colesterol elevado (hipercolesterolemia) mostrou que um tratamento de apenas seis meses com uma determinada estatina diminuía consideravelmente os níveis de citoquinas

De acordo com um artigo publicado na Revista Portuguesa de Pneumologia em Janeiro de 2007 (ver bibliografia), são encontrados na DPOC níveis séricos elevados de proteína C reactiva, interleucina (IL-6), leucotrieno B4, TNF-a e outros marcadores biológicos, sendo que “o estudo dos mecanismos subjacentes à inflamação e a utilização terapêutica de moléculas que, de forma selectiva, antagonizem estes processos poderão constituir abordagens eficazes na reversão da doença”.

Estatinas com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes


Em suma, os benefícios das estatinas em doentes com DPOC parecem advir, pelo menos em parte, do seu efeito anti-inflamatório. Para além deste efeito, acredita-se que as estatinas têm igualmente um importante componente antioxidante. Sabe-se, por exemplo, que os alimentos ricos em antioxidantes são bons para os doentes com DPOC, devendo fazer parte da sua dieta.

Como se pode ler no Jornal Brasileiro de Pneumologia, numa edição de Novembro de 2004, “na patogénese da DPOC, é importante a participação do stresse oxidativo, o qual se inicia antes mesmo do processo inflamatório, devido à inalação de radicais livres presentes nos cigarros, mas que permanece e se intensifica durante o processo inflamatório. O stresse oxidativo é o desequilíbrio entre os radicais livres (oxidantes) e seus redutores, em favor dos primeiros”. E acrescenta que uma revisão sistemática mostrou uma diminuição das exacerbações e dias de internamento em pacientes portadores de DPOC que utilizaram um antioxidante, no caso a N-acetilcisteína.

Recorde-se que os efeitos das estatinas noutras vertentes para além da redução dos lípidos têm sido extensamente estudados, nomeadamente na estabilização da placa de ateroma (aterosclerose), no stress oxidativo vascular, na função endotelial, na doença renal, na hipertensão, na osteoporose, na esclerose múltipla e até na doença de Alzheimer.

Fontes:

http://www.biomedcentral.com/1471-2466/9/32
http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1921080,00.html
http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?pid=S0873-21592007000100011&script=sci_abstract
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17319096?dopt=AbstractPlus&holding=f1000,f1000m,isrctn
http://www.jornaldepneumologia.com.br/PDF/Suple_124_40_DPOC_COMPLETO_FINALimpresso.pdf
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