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Rede de Espirometria poderá contribuir para um diagnóstico mais precoce

A realização de espirometrias nos centros de saúde é uma das medidas que os especialistas querem pôr no terreno dentro em breve, no sentido de promover um diagnóstico mais precoce da doença pulmonar obstrutiva crónica. Hoje sabe-se que o diagnóstico nas fases iniciais da DPOC permite travar a sua progressão, permitindo que os doentes levem uma vida perfeitamente normal.

| Dra. Paula Simão, Coordenadora na região Norte do GOLD

Rede de Espirometria poderá contribuir para um diagnóstico mais precoce

Apostar na sensibilização da sociedade, dando-lhe armas para aprender a lutar contra a DPOC e promover um diagnóstico mais precoce é o grande objectivo do Grupo GOLD, cuja Coordenação na região Norte é da responsabilidade da Dra. Paula Simão e da Dra. Sara Conde.

O objectivo do GOLD – Global Iniciative for Chronic Obsctrutive Lung Disease, constituído por um grupo de especialistas internacionais e patrocinado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é chamar a atenção das autoridades para o problema da DPOC (em Portugal, existe o Programa Nacional de Prevenção e Controlo da DPOC – PNPCDPOC – desde 2005, o que significa o reconhecimento de que este é um problema de saúde pública) e dar a conhecer a doença aos médicos, sobretudo aos médicos de família, a todos os profissionais de saúde e ao público em geral, designadamente através de acções de formação e de campanhas de sensibilização.

“O grande público é a nossa grande batalha actual. Só se a população estiver alertada para a doença é que vai procurar o médico”, considera a pneumologista do Hospital de Pedro Hispano/Unidade Local de Saúde de Matosinhos.

Esta é, de resto, uma estratégia semelhante à que tem sido aplicada em relação às doenças cardiovasculares, que, embora continuem a ser a principal causa de morte, já começaram a decrescer.
Actualmente, o nível de conhecimento da população é “muito baixo”. Em inquéritos realizados pontualmente, percebeu-se que “quase 99% das pessoas não faz a mínima ideia do que significa a sigla DPOC”.

Há alguns anos, um inquérito realizado no próprio Hospital de Pedro Hispano a profissionais de saúde, incluindo médicos e enfermeiros, revelou que muitos desconheciam do que se estava a falar.

“Os sintomas são inespecíficos e muito insidiosos”


Sendo uma doença tão prevalente, é no mínimo estranho que as pessoas não saibam do que se trata. Calcula-se que a DPOC atinja à volta de 500 mil pessoas, isto é, 5% da população. Estes números são estimativas, esperando-se para breve os resultados de um estudo de prevalência intitulado BOLD, da responsabilidade do Grupo GOLD e da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, sob a coordenação da Dra. Cristina Bárbara. Prevê-se que as conclusões do referido estudo apontem para uma prevalência superior à que se estima neste momento.

Há várias hipóteses para que a DPOC seja tão ignorada. Uma delas é o facto de se utilizar uma sigla. Para a Dra. Paula Simão, não é desculpa. “Houve outras siglas que entraram, como o AVC”, lembra.
A verdade é que a sigla é recente. Antigamente, ela abrangia várias doenças: incluía, a bronquite crónica, o enfisema, as bronquiectasias e até a asma, isto é, todas as doenças onde havia uma obstrução brônquica. Só no início deste século é que houve uma mudança de conceito e a própria definição da doença mudou, assim como os critérios de diagnóstico da DPOC. Actualmente engloba os conceitos de bronquite crónica e enfisema e o diagnóstico é feito demonstrando obstrução na espirometria (uma prova de função respiratória).

Por vezes, o diagnóstico não é óbvio. É preciso pensar nele. “Os sintomas são inespecíficos e muito insidiosos, isto é, não surgem de forma abrupta. A maior parte dos doentes refere falta de ar e um cansaço anormal no exercício de determinadas tarefas. Os doentes cansam-se quando sobem escadas e passam a andar de elevador. Quando jogavam futebol com os amigos, deixam de o fazer, mas culpam sempre o tabaco”, conta. Claro que o tabaco é o grande responsável pela DPOC mas os sintomas ocorrem devido à doença! Os sintomas incluem, também, tosse e expectoração crónicas.

O principal factor de risco é o tabaco, mas a DPOC também pode ser provocada pela exposição a poeiras inalatórias, como as emitidas pelas lareiras que ainda são comuns nas aldeias do nosso país. “Por isso, em Portugal, há muitas mulheres com DPOC que nunca fumaram”, salienta.

Por isso, “os indivíduos com mais de 40 anos, fumadores ou ex-fumadores com sintomas devem dirigir-se ao médico de família. Mas há aqueles doentes que não têm sintomas. Mesmo nestes casos, o médico de família deve estar atento aos factores de risco e deve mandá-los fazer uma espirometria uma vez por ano”, exorta.

Espirometria passará a ser feita nos centros de saúde


A espirometria é um método “extremamente simples, barato e não invasivo”. Basicamente, os doentes enchem o peito de ar e sopram com muita força para dentro de um tubo que consegue medir a quantidade de ar, isto é, o débito expiratório, após uma prova de broncodilatação de acção rápida. Isto permite perceber, em poucos minutos, se os brônquios estão obstruídos ou se estão normais. Consoante os valores encontrados, faz-se ou não o diagnóstico.

Para a especialista, a espirometria deveria entrar na rotina, tal como já acontece já com as análises à glicemia ou ao colesterol, sobretudo nas pessoas que tenham factores de risco.

Um dos objectivos do PNPCDPOC é, precisamente, criar uma Rede de Espirometria, que permitirá que a espirometria possa ser feita também nos centros de saúde. “Sendo a espirometria um meio tão simples, não faz sentido que só possa ser feito dentro de um hospital”, diz a médica.

No entanto, a constituição desta rede implica a aquisição de espirómetros e a contratação de profissionais treinados. A ideia é que os técnicos percorram os centros de saúde, tornando o teste acessível a toda a gente.

A Unidade Local de Saúde de Matosinhos, com o apoio da indústria farmacêutica, irá avançar em Janeiro de 2009 com uma Rede de Espirometria que abrangerá os quatro centros de saúde existentes no concelho. Um técnico estará, de quinze em dias, em cada centro de saúde. O projecto, que irá estender-se durante pelo menos um ano, deverá ter repercussões quer aumentando o número de diagnósticos de novos casos, quer retirando do hospital muitos doentes que podem perfeitamente ser diagnosticados e seguidos nos cuidados de saúde primários.

“O diagnóstico precoce trava a progressão da doença”


O diagnóstico precoce da DPOC tem imensas vantagens. “A DPOC pode ser ligeira, moderada, grave e muito grave. No nosso hospital, muitos dos diagnósticos são feitos nas fases mais tardias, quando já há muitos sintomas, designadamente quando o doente vem ao Serviço de Urgência por causa de uma constipação ou de uma infecção respiratória. Se nós conseguirmos fazer o diagnóstico e uma intervenção terapêutica eficaz no estadio ligeiro, é muito melhor. Pode até não ser necessário dar medicamentos. Basta que os doentes deixem de fumar. Deixar de fumar é determinante. Os doentes estabilizam e a doença não evolui”, garante.

Por outras palavras, “o diagnóstico precoce trava a progressão da doença, sobretudo se conseguirmos intervir nos factores de risco e se a terapêutica for optimizada. Um doente no estadio 2 que deixa de fumar, toma a sua medicação, toma a vacina antigripal e trata atempadamente as exacerbações pode modificar completamente a evolução da sua doença”.

Os benefícios são, portanto, fantásticos, quer do ponto de vista da saúde, quer do ponto de vista financeiro.
Já os doentes que são diagnosticados numa fase mais avançada da sua doença (por exemplo, no estadio 3 e 4) terão uma obstrução muito marcada e precisarão de tomar vários fármacos, tais como broncodilatadores e corticóides. Em alguns casos, terão de fazer ventilação não invasiva e oxigénio. “Aí, já em um pouco tarde. É dramático”, lamenta.

Além disso, deixam de trabalhar, têm muitas consultas periódicas, recorrem muitas vezes às urgências, têm frequentemente de ser internados. Os custos directos e indirectos são astronómicos. Isto já para não falar na perda da qualidade de vida e no risco acrescido de morbilidade e mortalidade.

Estima-se que a DPOC mata mais de 2,75 milhões de pessoas por ano, sendo considerada a 4ª causa de morte a nível mundial. Em Portugal, é já a 6ª causa de morte. Em 2020, a DPOC pensa-se que será a quarta.

A Dra. Paula Simão é pneumologista no Hospital de Pedro Hispano/Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Assistente da Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto, Coordenadora da Comissão de Reabilitação Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia e Coordenadora do Grupo GOLD na região Norte desde o seu início.